Miguel Reale

Sua poderosa inteligência sempre me fascinou. Quando o conheci pessoalmente, fiquei impressionado com a sua humildade, com a aparente “fragilidade” daquele sorriso e com a incrível força irradiada pelos olhos azuis brilhantes e cheios de vida. Quase centenário, o Prof. Miguel Reale mantinha impressionante lucidez e inacreditável atualidade de seu conhecimento enciclopédico.

Conversamos até mesmo sobre comércio eletrônico, criptografia, assinaturas eletrônicas, sentados à mesa de um restaurante em Ribeirão Preto, na companhia da querida amiga Yvete (Profa. Titular de Processo Civil) da UNESP de Franca/SP.

Como disse seu filho (Miguel Reale Jr.) no Jornal “O Estado de SP” de sábado, 15/04/2006 – A13, o Prof. Miguel Reale impressionava pela humanidade, pela retidão, honestidade e pela clareza e limpidez quando falava. “Todos se recordam de suas aulas. Nunca falou com um pedaço de papel na mão. Sempre repetia uma frase de Ortega: Sei que a primeira gentileza do filósofo é a clareza. – Era característica do Prof. Miguel Reale ter todas as idéias concatenadas e elas brotarem e saírem espontaneamente.” 

Com a morte do Professor Miguel Reale, encerra-se (pelo menos pelas próximas dezenas de anos) a era dos grandes juristas deste país.

Infelizmente, neste início de século XXI, assistimos a valorização cada vez mais da aparência em detrimento da inteligência. “Não é mais o que você sabe que importa, mas o que as pessoas pensam que você sabe.”

São os evidentes sinais da era do conhecimento fragmentário, superficial. O nivelamento por baixo, como costumava dizer o saudoso Paulo Francis.

A formação diferenciada dos juristas de gerações anteriores (o padrão mínimo da bagagem cultural que possuíam) são raridade nos modelos de conhecimento/ensino jurídico da atualidade. O Professor Miguel Reale, era o exemplo emblemático desta diferença de qualidade de formação e preparo. Ser humano fantástico, professor inesquecível.

Como disse o próprio Professor Miguel Reale: “A morte é, assim, um comando de amor aos que sobrevivem, uma exigência para que se dê continuidade àquilo que antes se fazia, ao trabalho que não pode nem deve ser interrompido. Amoroso trabalho que torna, então, binada a nossa ocupação, como se dois passassem a trabalhar, um a inspirar e o outro a fazer.”

Muito obrigado Professor!

Paulo Sá Elias, abril de 2006.

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