Será que a burrice é uma ciência?


Foto: Paulo Sá Elias / Golfeto – O cérebro e a máquina.

Quando eu ainda morava em São Paulo na década de 90, eu assisti o discurso de despedida de um Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo que dizia sentir-se não mais capaz de defender profissionalmente como magistrado determinados ideais – pois “suas luzes estavam se apagando” – por conta da idade avançada e a inevitável aposentadoria compulsória. No discurso, deixava aos jovens juízes a missão de defender tais valores que fazia referência na oportunidade, a justiça, o direito, enfim – toda a sabedoria jurídica que normalmente deve passar de uma geração para outra.

Lembro-me de ter ficado com um receio enorme, como se pedisse ao Desembargador – ou se pudesse pedir aos experientes juristas da geração anterior – muitos já não mais entre nós (Miguel Reale, Caio Mário da Silva Pereira, Sílvio Rodrigues, Orlando Gomes, Carlos Maximiliano, Pontes de Miranda, etc.) – para que não abandonasse o barco, pois eu já naquela época duvidava da firmeza da maioria dos meus pares, dos meus contemporâneos (veja o que ocorre no Brasil hoje em 2009 – no Senado Federal, só para dar um exemplo. A nova geração é medrosa, fraca, frouxa, sujeita-se de forma servil aos desmandos em Brasília.) – Mas o tempo é implacável e a vida passa, as pessoas morrem e há uma renovação natural na ordem das coisas e das pessoas. Não que elas sejam substituíveis, pois tenho certeza que não são. As pessoas são insubstituíveis sim. Exemplos emblemáticos para eliminar qualquer dúvida são: Moisés, Jesus Cristo, Buda, Maomé, Mozart, Beethoven, Leonardo Da Vinci, Michelangelo. Nunca mais surgiu alguém igual. Aparece outro, mas igual não.

Há alguns anos eu comentava com o velho amigo Antônio Vicente Golfeto (que aparece na foto acima tendo contato próximo com um laptop e um dicionário eletrônico para o seu deleite) a respeito da decadência no ensino superior, na vida acadêmica brasileira, nas coisas em geral, daquilo que está começando a se degradar e se encaminha rapidamente para o fim, para a ruína – como na definição de Houaiss. E descobri nessa conversa como é bom ter amigos inteligentes. Só que o Golfeto é um amigo que tem quase 70 (setenta) anos. É da geração anterior. Sei que estou parecendo misoneísta, mas não sou. É que está difícil mesmo. E como não poderia deixar de ser, recebi recentemente entre vários e-mails dos meus contemporâneos com correntes de pensamento e outras bobagens de sempre, um e-mail dele e que foi perfeito para o momento atual. Ele recebeu de alguém, provavelmente de outro quase septuagenário. Não tem autoria definida, mas é muito interessante, razão pela qual reproduzo-o a seguir:

“Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar seu discurso de estréia  na  Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai,  o que tinha achado do seu primeiro desempenho naquela assembléia de vedetes políticas. O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal:  “Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa. Isso é imperdoável. Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco. Com a inteligência  que  demonstrou  hoje,  deve  ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos.  O talento assusta”.

E  ali estava uma das melhores lições de abismo que um velho sábio pode dar ao pupilo que se inicia numa carreira difícil. A maior parte das pessoas encasteladas em posições políticas é medíocre e tem um indisfarçável medo da inteligência. Isso na Inglaterra. Imaginem aqui no Brasil. Não é demais lembrar a famosa trova de António Alexo, poeta português:

Há tantos burros mandando em homens de inteligência
que às vezes fico pensando que a burrice é uma ciência.

Temos de admitir que, de um modo geral, os medíocres são mais obstinados na conquista de posições.  Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displiscentes que não revelam o apetite do poder. Mas é preciso considerar que esses medíocres ladinos, oportunistas e ambiciosos, têm o hábito de salvaguardar suas posições conquistadas com verdadeiras muralhas de granito por  onde talentosos não conseguem passar. Em todas as áreas encontramos dessas fortalezas estabelecidas, as panelinhas do arrivismo, inexpugnáveis às legiões dos lúcidos.

Dentro desse raciocínio, que poderia ser uma extensão do Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdam, somos forçados a admitir que uma pessoa precisa fingir de burra se quiser vencer na vida.

É pecado fazer sombra a alguém até numa conversa social. Assim como um grupo de senhoras burguesas bem casadas boicota automaticamente a entrada de uma jovem mulher bonita no seu círculo de convivência,  por medo de perder seus maridos,  também os encastelados  medíocres se  fecham como ostras à simples aparição de um talentoso jovem que os possa ameaçar.

Eles  conhecem  bem  suas  limitações,  sabem como lhes custa desempenhar tarefas que os mais dotados realizam com uma perna nas costas, enfim, na medida em que admiram a facilidade com que os mais lúcidos resolvem problemas,  os  medíocres  os  repudiam  para  se  defender. É um paradoxo angustiante. Infelizmente temos de viver segundo essas regras absurdas que transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante a vida.

Como é sábio o  velho conselho de Nelson Rodrigues:  finge-te de idiota e terás o céu e a terra.

O problema é que os inteligentes gostam de brilhar. Que Deus os proteja.

Outro problema é que nem sempre o Poder é fruto da inteligência e o mundo vai de mal a pior.

Que Deus nos proteja.”

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