Comportamento cortesão…

Vamos falar um pouco sobre o trabalho de NORBERT ELIAS, quando estudou os aspectos sociais da vida de JOHANN CHRYSOSTOM WOLFGANG THEOPHILUS (GOTTLIEB, AMADEUS) MOZART.  O autor estuda não apenas MOZART, conforme esclarece MIRIAN GOLDENBERG, mas a posição que o compositor ocupou na sociedade de sua época, as determinações que pesaram sobre seu destino pessoal e os constrangimentos que sofreu no exercício de sua criação. Como é notório, a morte prematura de MOZART é considerada por muitos a maior tragédia da história da música. Existem centenas de controvérsias e teorias sobre a sua morte. ELIAS, segundo a autora, revela as razões pelas quais MOZART se sentiu um fracasso.

MOZART insistia em dizer que havia sido envenenado. Evenenamento por mercúrio? Febre reumática? Triquinose? Medicamentos em excesso? Reflexos das graves enfermidades que teve ao longo de sua vida?  Não se sabe.  Uma coisa é certa, no entanto, independentemente do que matou Mozart, o “envenenamento da mente” e a inveja são perniciosos, podendo causar danos psíquicos e destruir a vida de um homem.  MARCEL BRION, no livro Viena no tempo de MOZART e de SHUBERT, São Paulo: Companhia das Letras, 1991 (pág. 91, in fine) traz importantes esclarecimentos sobre a sociedade da época, quando questiona se Viena realmente se mostrou digna de MOZART. Diz que “a sociedade da época permitiu que MOZART definhasse numa pobreza que lhe exauriu as forças, levando-o a uma morte prematura. Os insistentes pedidos de dinheiro que o compositor fez a seus amigos de Salzburgo e aos “irmãos maçons”, a constante e terrível penúria que o perseguiu até a hora da morte, o carro fúnebre que conduziu seu corpo à vala comum, os expedientes a que recorreu para sobreviver, parecem mostrar que Viena não soube, ou não quis, proporcionar-lhe o mínimo de recursos, para que pudesse manter a paz de espírito e a tranqüilidade necessárias ao trabalho. A pobreza do lar de MOZART não foi provocada pela frivolidade e pelos caprichos de sua mulher, CONSTANZE, afinal, estes não eram assim tão onerosos. A verdadeira causa foi a sovinice das famílias vienenses, que lhe pagavam um salário ridículo por suas aulas, a indiferença do público, que fazia de suas óperas um fracasso, ou um semi-sucesso, a desonestidade dos editores, sempre fraudando seus direitos autorais, que ele, descuidado de tudo o que se relacionava com dinheiro, não soubera preservar através de um contrato adequado. E quem, melhor que MOZART poderia conquistar a admiração e a devoção de todos os vienenses, que no entanto deram preferência a SALIERI, MARTIN Y SOLER e outros compositores, muito inferiores a ele?”.

“Na geração de MOZART, um compositor que quisesse ter sua música reconhecida e garantir a subsistência dependia de um cargo numa corte.  […] Ao apresentar o modelo das estruturas  sociais em que vivia um músico no século XVIII – e a posição dominante dos padrões cortesãos de comportamento, sentimento, gosto musical e vestuário – ELIAS demonstra o que MOZART era capaz de fazer como indivíduo, e o que não era capaz de fazer, apesar de sua grandeza e singularidade. MOZART viveu o drama de um artista burguês na sociedade de corte: a indentificação com o gosto cortesão e a vontade de ter sua música reconhecida pela nobreza; e o ressentimento pela humilhação de ser tratado como serviçal pelos aristocratas da corte. […] Para ser um músico da corte, além de qualificações musicais, era necessário assimilar o padrão de comportamento cortesão. Mas MOZART não tinha as habilidades necessárias para conquistar os nobres: odiava bajulações, era franco, direto e até rude com as pessoas de quem dependia. Com pouco mais de 20 anos, desistiu de seu posto relativamente seguro de regente da orquestra e organista da corte de Salzburgo e foi ganhar a vida como artista autônomo, dando aulas de música e concertos para o público vienense, vendendo seu talento e suas obras em um mercado incipiente, predominantemente composto de aristocratas da corte. […] Na época de MOZART era muito difícil se estabelecer como artista autônomo e conseguir “dar rédea livre às suas fantasias”, como MOZART desejava. ELIAS, analisando a mudança na posição social do artista – do patronato ao mercado livre, lembra que BEETHOVEN, nascido em 1770, quase 15 anos depois de MOZART, conseguiu com muito menos problemas libertar-se da dependência do patronato da corte, impor seu gosto a um público pagante e alcançar sucesso com a venda de suas composições para os editores.” (GOLDENBERG, Mirian. A arte de pesquisar (como fazer pesquisa qualitativa em ciências sociais). Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 39-41)

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