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Neurociências e Educação

Saturday, December 11th, 2010

Foto:  Escola de Atenas de Rafael

Nos dias 10 e 11 de dezembro de 2010, tive o prazer de participar do I Fórum em Neurociências e Educação na USP em Ribeirão Preto. O evento foi organizado pelo Projeto Plural, Casa da Ciência e Grupo Verde, com apoio da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), Instituto de Neurociências e Comportamento (INeC), Hemocentro de Ribeirão Preto, Núcleo Távola, Centro Integrado de Psicologia e Educação (CIPE), Cooperação Interinstitucional de Apoio a Pesquisa sobre o Cérebro (CInAPCe), Programa de Pós-Graduação em Neurociências e Ciências do Comportamento da FMRP e Oficina Da Vinci.

Agradeço ao Prof. Dr. Cezar Laerte Natal (UNICAMP/USP/UFMG), pós-doutor em Neurobiologia pela City University of New York (1990) – ênfase em Sistema Nervoso – por sua agradável companhia e pelo honroso convite. Foi uma experiência excelente e que deveria ser obrigatória para todos educadores.

Gostei muito de tudo o que ouvi e o evento foi encerrado “com chave de ouro” quando da participação inesquecível do muito distinto Prof. Dr. Sérgio Mascarenhas do Instituto de Física da USP de São Carlos – (Diretor do PIEPAL – Programa Internacional de Estudos e Projetos – Instituto de Estudos Avançados de São Carlos) – que com sua inteligência brilhante, com a clareza que é a gentileza característica dos filósofos e uma precisão e síntese impressionantes – certamente conseguidas com a experiência como um grande cientista e professor que é – conseguiu gravar em minha memória para sempre os seguintes comentários que reproduzo a seguir:

“(…) Não precisamos no Brasil de operários treinados. Precisamos de trabalhadores pensantes, inovadores. Somente educação não basta. Precisamos de mudanças culturais. O Brasil apesar de ter a mesma idade dos Estados Unidos, se diferencia dele de uma maneira significativa. Harvard foi fundada em 1636. A primeira universidade brasileira – que é a USP – foi fundada em 1934. Praticamente 300 (trezentos) anos depois. Por isso é que o Brasil é diferente dos Estados Unidos. Por isso que nós somos colônia, por isso é que nós somos colonizados tecnologicamente. Queremos uma cultura nova. Não apenas a cultura do carnaval e do futebol, que são razoáveis. O Brasil é muito fraco em ciência, tecnologia e inovação. O grande cientista Miguel Nicolelis falou da necessidade de criarmos com orgulho e autoconfiança uma nova “cultura tropical”.

Mecanismos para isso: ciência, tecnologia e inovação. Se continuarmos no caminho do blá, blá, blá, do futebol e do carnaval – não teremos uma inserção virtuosa no mundo globalizado.

Temos que pensar sistematicamente em ciência e tecnologia como convergentes. Impossível separar um do outro. O nosso século XXI é caracterizado por essa convergência. E os elementos básicos para a educação são facilmente compreendidos pelo “Triângulo de Sabato” (Jorge Alberto Sabato) – quando diz que para um país progredir, ter desenvolvimento, precisa da interação entre EMPRESA, GOVERNOUNIVERSIDADE. A interação da Universidade com as empresas no Brasil é péssima.”

Absolutamente preciso, um verdadeiro “tiro de sniper” no problema fundamental do Brasil. Meus cumprimentos ao professor!

Lamento ver a grande maioria das pesquisas servindo apenas para ocupar as estantes das bibliotecas, compondo o cenário do principal banquete da academia brasileira: espelhos e tapetes vermelhos – somado muitas vezes, infelizmente, às impostures intellectuelles descritas por Alan Sokal e Jean Bricmont.

No epílogo do polêmico livro “Imposturas intelectuais”, os referidos autores sugerem algumas observações relevantes que devem merecer a atenção de todo cientista. Complementando as orientações com algumas passagens da obra, reunimos 10 itens principais: 1º – é uma excelente idéia saber do que se está falando — para falar de assuntos de forma sensata, equilibrada, é preciso compreender as teorias científicas relevantes em nível bastante profundo e inevitavelmente técnico; 2º – Nem tudo que é obscuro é necessariamente profundo. Em muitos casos, se os textos parecem totalmente incompreensíveis, isso se deve à razão de que não querem dizer absolutamente nada; 3º – É importante a precaução com o argumento da autoridade; 4º – Considerar o fato de que muitos autores utilizam intencionalmente a ambigüidade como subterfúgio; 5º – Quando se combina negligência do empírico com muito dogmatismo cientificista, pode-se incorrer na pior das elucubrações; 6º – A atitude científica deve ser entendida bem amplamente como respeito à clareza e coerência lógica das teorias; 7º – Como disse Noam Chomsky, se você (como cientista) sentir muita dificuldade em tratar de problemas reais, há uma série de meios para evitá-los. “Um deles é perseguir quimeras que não têm realmente importância. Outro é envolver-se em cultos acadêmicos que são bastante divorciados de qualquer realidade e que oferecem defesa contra lidar com o mundo como ele realmente é.”; 8º – Não se pode pôr em dúvida que a ciência, como instituição social, está ligada ao poder político, econômico e militar — sendo que o papel desempenhado pelo cientista pode ser, muitas vezes, extremamente pernicioso; 9º – Muitas pessoas estão simplesmente irritadas com a soberbia de determinados cientistas, especialmente os pós-modernistas e suas típicas expressões como “problematização”, “relativização”, “não-linear”, “multidimensional”, etc.; 10º – A crítica do passado deve iluminar o futuro e não levar apenas a contemplar as cinzas. Enfim, a esperança é pelo “surgimento de uma cultura intelectual que seja racionalista mas não dogmática, científica mas não cientificista, receptiva a idéias e argumentos mas não frívola, politicamente progressista mas não sectária.